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O drama da intervenção redentiva de Deus como manifestação da promessa.

Por Adriana Meira Lima Alves

Meu primeiro contato com as histórias bíblicas do Antigo Testamento foi numa classe de escola bíblica dominical. Minha mãe era professora do ministério infantil, então eu sempre a observei preparando a aula, confeccionando cartazes, separando os materiais manuais. Cada domingo esperava com grande expectativa o momento em que conheceria mais um personagem desse livro preto com bordas
douradas.

Será que essas histórias bíblicas tão fascinantes têm relevância para minha vida adulta? Ou seriam apenas informações sobre contextos históricos passados, sobre os costumes judaicos?

Cada relato histórico da Bíblia apresenta Deus ao homem. Um Deus que quer se relacionar com a sua criação. Um Deus que nos convida a conhecê-lo e a caminhar com Ele. Pontua Geerhardus Vos que “Somente à medida que tal ser escolhe se expor é que podemos conhecê-lo. Toda vida espiritual é, por natureza, uma vida escondida, uma vida fechada em si mesma. Tal vida só nos pode ser conhecida por meio de revelação”

A beleza e a profundidade da revelação divina moldam nossa maneira de viver e aquecem o nosso coração. Por isso, é fundamental que todo cristã compreenda o processo da autorrevelação de Deus, que se desdobra de uma maneira orgânica nos acontecimentos narrados nas Escrituras. O estabelecimento das alianças fornece coesão à narrativa bíblica. Deus atua em direção ao homem com vistas a redimi-lo, enunciando uma promessa. A forma divina de agir é por meio de um pacto de amor de maneira unilateral, ou seja, que independe da vontade humana. É a ação objetiva de Deus em favor da humanidade para restaurar um relacionamento conosco e que se preserva ainda que o homem venha a se desviar da aliança firmada.

Geerhardus Vos comenta sobre a proposta da teoria aliancista progressiva em que “o processo de revelação não é somente concomitante com a História, mas se torna encarnado na História”.

Segundo o princípio da progressividade da revelação, o plano de Deus se desenvolve do Antigo para o Novo Testamentos. A cada período na história do seu povo, Deus acrescenta novos elementos que
complementam as revelações anteriores. O plano da redenção é único e é reafirmado em estágios nas alianças feitas entre Deus e os homens, tendo o seu cumprimento em Cristo.

Deus inspirou homens com palavras investidas de autoridade numa sequência coerente de revelação que sempre apontava para Jesus. Assim, Deus se revelou progressivamente em cada uma das alianças firmadas com Adão, Noé, Abraão, Isaque, Jacó, Moisés. Depois do período mosaico, os profetas passaram a transmitir a mensagem divina. George E. Ladd3 destaca que a mente profética, de modo geral,

“se posicionava no presente e via o futuro como uma grande tela de obra redentora de Deus em termos de altura e largura, mas sem a clara dimensão da profundidade”.

Assim, a Bíblia apresenta uma única história: da intervenção redentiva de Deus com a humanidade.

“Tudo o que é essencial para que o ser humano conheça a Deus e seja levado de volta à sua presença por meio da aliança redentiva está escrito de forma clara, limpa e transparente”

O drama inicia com a Criação. Nesse momento, Deus traz ordem e direção ao cosmos e a sua atividade criativa é bela, multiforme, graciosa! É a revelação geral de Deus presente na natureza. “Os céus declaram a glória de Deus, o firmamento proclama a obra das suas mãos.” (Salmo 19:1, NVI). Deus também criou o homem e o colocou no jardim para o cultivar e o guardar. O homem recebeu
de Deus o domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra (Gênesis 1:26, NVI). Portanto, o homem passou a agir como co-regente da criação.

Em seguida, o homem decide desobedecer a palavra de Deus. O pacto pessoal firmado foi quebrado. Toda a criação sofreu imediatamente com os efeitos corrosivos da queda5 e surgiu o sentimento de culpa. O pecado entra em cena e atinge toda a raça humana quanto à sua posteridade.

Todo indivíduo já nasce com a raiz do pecado e o desejo de autocontrole da sua vida. Em resposta, surge a promessa divina revelada na maldição da serpente, a qual norteará toda a narrativa bíblica:

“Porei inimizade entre você e a mulher, entre a sua descendência e o descendente dela. Este lhe ferirá a cabeça, e você lhe ferirá o calcanhar” (Gênesis 3:15, NVI).

Como bem ressalta Wolters, após a queda, “Deus não permite que a desobediência do homem transforme a sua criação num caos absoluto. Em vez disso, ele mantém sua criação em face de todas as forças de destruição.” Deus renova alianças com diversos personagens bíblicos, para que se cumpra o seu plano de redenção. Diante das fraquezas e pecados do seu povo, a graça de Deus se revela por meio dos atos redentivos.

A pluralidade de narrativas que encontramos na Bíblia não é apenas informativa mas também é transformadora. Nós ocupamos um lugar nessa história que se encerrará com a volta de Cristo. É uma história única e coerente, em que Deus fala ao seu povo de maneira pessoal e o seu povo responde de maneira adequada ou inadequada.

Desse modo, estudar a Teologia Bíblica do Antigo Testamento nos capacitará a compreender as palavras pessoais de Deus a nós. Paulo Won muito bem sintetiza como devemos ler as Escrituras: “O que acontece no meio até o final é o drama das Escrituras, o enredo que tem o Deus Trino como seu ator principal e a humanidade como coadjuvante. A forma pela qual nós devemos ler esse grande enredo
salvífico e divino é localizando-nos dentro desse drama que começa com o ato da criação, desenvolve-se por meio da Queda, do evento-Cristo e, por fim, da redenção final.”

As histórias bíblicas, portanto, são extremamente relevantes e iluminam o entendimento de todo cristão que se dedica a conhecer a revelação especial de Deus contida na sua Palavra. Somos salvos pelo cumprimento da promessa aplicada em nós! Uma promessa que se repete e que ainda permanece, apesar da nossa natureza pecaminosa.

Dedicar-me ao estudo dos acontecimentos narrados no Antigo Testamento, com o mesmo deslumbramento de quando era criança, redirecionará o meu coração para um relacionamento íntimo com Deus. Ao compreender o cumprimento da promessa de Deus em Cristo, entendo o meu papel nessa linda história, enquanto espero a sua volta, pautando as ações de minha vida na fé inabalável que Seu Reino de justiça e beleza será implantado integralmente.

 

Adriana Meira Lima Alves

Outono de 2022.

 

 

Referências bibliográficas:

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formação do cânon do antigo testamento. Btcast 335. Bibotalk. Brasil, 2013. 1
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