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SOBRE CABELOS, OMBRELONES E GALINHAS.

Simone conheceu seu cabeleireiro há mais de duas décadas. Era um estrangeiro alto, loiro, lindo, que ainda não falava português e assim como nós, era jovem… Simone gostou tanto do jeito que ele acertou o cabelo dela, que nunca mais o largou. Assim o Frederick Fick se tornou uma instituição familiar. Minha filha só corta cabelo com o Fred. Meu filho vem de São Paulo para cortar cabelo com o Fred. Apenas eu, que também amo o amigo Fred, não faço tanta questão, e corto em qualquer lugar. Fred se tornou um amigo íntimo da família.

 

Hoje, após eu e Simone estarmos livres e limpos da COVID, fomos ao Fred para Simone poder dar um tapa em suas assumidamente brancas madeixas. “Fred, e como está sua saúde?”, perguntei. Ele bem-humorado como sempre revelou: “Estou bem sim! Mas este ano tive que retomar a quimioterapia, pela segunda vez. Já disse ao médico que, se desta vez não der certo, não farei mais o tratamento e deixarei acontecer o que tiver que acontecer. Não deu certo na primeira, e se não der certo na segunda tentativa, é para não dar certo mesmo e…”

 

Fitei-o nos olhos profundamente, sem palavras, admirado pela coragem. Ele completou. “Talvez seja um teste pelo qual eu estou passando”. Eu disse, talvez sim, talvez não Fred. Talvez não seja teste algum. Talvez seja apenas a vida mesmo. Alguns viverão 90, outros, 80, ou 70, 60… ou 50. Talvez seja apenas o ciclo da vida mesmo. Não existe uma lógica nisto. Com as mãos nos cabelos da Simone e com olhar ainda fixo em mim, chorou. Sim, viver exige coragem. Adoecer também. Morrer também.

 

Admiro o jeito que o Fred leva sua vida. Como qualquer pessoa culta e sofisticada, ele é simples nos hábitos e sabe admirar a trivial beleza do momento. Orei com ele no final do corte de cabelo. Pedi a Deus sua cura e creio que ele viverá. Ele chorou novamente. Tenho certeza de que suas lágrimas subiram aos céus como uma doce prece!

 

No início do mês minha filha nos ligou para contar algo inusitado. Ela disse que no café-da-manhã, conversando com seu marido, Stevan, concordaram que precisavam de um ombrelone para o quintal. Estavam mesmo decididos que esta seria uma aquisição importante por conta da recém-inaugurada piscina. No mesmo dia, já no café da tarde, uma amiga liga para minha filha e diz: “Luciana, você quer um ombrelone novo de presente? Um amigo está se mudando de país e vendendo tudo. Porém, o ombrelone novo ele está doando e lembrei-me de você!”. Tenho certeza que o desejo matutino se converteu numa prece, atendida no vespertino.

 

Minha mulher disse há pouco tempo que gostaria que eu comprasse para nosso quintal uma galinha d’angola, pois elas são predadoras naturais de animais peçonhentos (serpentes, aranhas, escorpiões, etc). Ensaiei esta aquisição, porém, não o fiz. Até que, esta semana, simplesmente apareceu uma ruidosa galinha d’angola no quintal, vinda não sabemos de onde. Jurema, como Simone a batizou, está feliz, correndo de um lado para o outro, se alimentando de insetos indesejados por nós. Será que a conversa da Simone foi uma prece aos céus?

 

Tem um relato bíblico que mexe comigo:

“Por esse tempo, o rei Ezequias ficou doente e quase morreu. O profeta Isaías foi visitá-lo e disse: O Senhor Deus diz: “Ponha as suas coisas em ordem porque você não vai sarar. Apronte-se para morrer”. Então Ezequias virou o rosto para a parede e orou assim: “Ó Senhor Deus, lembra que eu tenho te servido com fidelidade e com todo o coração e sempre fiz aquilo que querias que eu fizesse”. E chorou amargamente. Isaías saiu do quarto em que o rei estava, mas, antes que tivesse passado pelo pátio central do palácio, o Senhor Deus lhe disse: Volte e diga o seguinte a Ezequias: “Eu, o Senhor, o Deus do seu antepassado Davi, escutei a sua oração e vi as suas lágrimas. Eu vou curá-lo, vou deixar que você viva mais quinze anos. Livrarei você e esta cidade do rei da Assíria. Então Isaías disse: Ponham uma pasta de figos em cima da úlcera do rei, e ele ficará bom.” (II Reis 20:1-7)

 

Um choro sincero que rendeu ao chorão mais quinze, quinze anos de vida! E evitou uma invasão Assíria no país. Que Deus é este? Ou melhor: que oração de cinco minutos foi esta?

 

Muita gente tem partido nestes tempos de COVID. Dos quase meio milhão de óbitos registrados até quando este texto foi escrito, apenas 5% são de pessoas abaixo dos 40 anos de idade, ou seja, 25 mil “jovens” ceifados. Creio que todos estes jovens tenham sido alvo de algum tipo de oração. A pergunta incômoda para muitos é: Qual o critério de Deus para ouvir uma súplica pela vida de alguém? Se a pessoa alvo da nossa oração falece, é porque Deus não ouviu a oração, porque não oramos direito ou porque Deus não existe mesmo? Particularmente entendo que uma oração não atendida, ou a morte de alguém querido, é paradoxalmente uma crise muito maior para quem não crê em Deus (nem na oração) do que para quem crê.

 

E assim a gente segue, ganhando ombrelone por desejá-lo e recebendo galinha d’angola por almejá-la. E a vida do Frederick Fick? Eu tenho certeza que o Fred ficará com a gente por muito tempo. Ele ainda tem muitos cabelos para cortar nesta vida! E, se ele partir, tenho certeza que quem sofrerá seremos nós, os que perderemos o trem.

 

Luciano Maia,  a 4 meses da próxima chuva de 2021.

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