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VELHO É O OUTRO.

Old Typewriter

Por Monize Marques

Recentemente publiquei minha dissertação, com um estudo sobre o envelhecimento. Nela, tive a oportunidade de fazer uma pequena reflexão, de onde extraí um trecho que gostaria de compartilhar com vocês…

“Andréa Pachá (2018), após ser designada para o exercício da magistratura na Vara de Sucessões no estado do Rio de Janeiro, deparou-se com diversos dilemas decorrentes do envelhecimento e de como a sociedade não está preparada para discutir sobre isso. Ela narra como se surpreendeu pelo fato de ter envelhecido, de estar cercada de velhos e de como ela mesma continua enxergando a todos como jovens. Ao questionar sua mãe, de 77 anos, de quando ela se percebeu velha, Pachá (2018, p. 11) ouviu: “Nunca! Eu ainda não sou velha!”.

Beauvoir (2018) já havia feito essa constatação, destacando que a sociedade descreve a velhice na perspectiva do ‘outro’, enquanto ser objeto de estudo. Velho é o outro e, quando se trata de alguém próximo de nós, descobrir a velhice dele é um duro golpe.

“É normal, uma vez que em nós é o outro que é velho, que a revelação de nossa idade venha dos outros. Não consentimos nisso de boa vontade. “Uma pessoa fica sempre sobressaltada quando a chamam de velha pela primeira vez”, observa O.W.Holmes. (…) Assim, quando ouvimos nos chamarem de velhos, muitas vezes reagimos com cólera.” (BEAUVOIR, 2018, p. 302)

De início, pensou-se que esse processo de negação da velhice derivasse da visão capitalista das relações, sobretudo no mundo ocidental. Todavia, já antes de Cristo, há relatos de que a visão da própria velhice está comprometida por quatro razões possíveis: 1) afastar o homem da vida ativa; 2) enfraquecer o corpo humano; 3) privar o homem dos melhores prazeres; e, 4) aproximar o homem da morte (CÍCERO, 2019).

Se há a recusa do próprio envelhecimento, não há que se falar em visibilidade do envelhecimento populacional como um todo. Se este segmento etário não se apropria das suas peculiaridades na preservação da sua autonomia, consente, ainda que de forma velada, pela expropriação da sua capacidade de expor suas preferências e vontades. Se não houver um debate profundo sobre as circunstâncias que envolvem a velhice, sobretudo no campo da saúde e participação no trabalho, estaremos recusando anos de avanço da ciência, que há décadas busca acrescentar anos na expectativa de vida. Parece, pois, um grande contrassenso, querer aumentar a expectativa de vida, mas evitar os desafios da velhice.

Neste ponto, vale reproduzir as lições de Cícero (2019, p. 34):

A velhice só é honrada na medida em que resiste, afirma seu direito, não deixa ninguém roubar-lhe seu poder e conserva sua ascendência sobre os familiares até o último suspiro. Gosto de descobrir o verdor num velho e sinais de velhice num adolescente. Aquele que compreender isso envelhecerá talvez seu corpo, jamais em seu espírito.

Refletir sobre o envelhecimento populacional, e circunstâncias sociais decorrentes dele, passa por assumir o próprio envelhecimento, confrontando eventuais suposições preconceituosas em relação à velhice, fundamentadas em estereótipos ultrapassados.

Por isso, as lições de Cícero (2019, p. 53) permanecem atuais: “Ouve-se ainda dizer que os velhos são mal-humorados, atormentados, irascíveis e rabugentos – e mesmo avarentos, examinando bem. Mas esses são defeitos inerentes a cada indivíduo, não à velhice.””

Aliás, quantas vezes associamos a adolescência à ‘aborrecência’, a infância à birra. Mas será que realmente todos os adolescentes são rebeldes? Talvez haja um tanto de incompreensão nisso… E será que todas as crianças são birrentas? A meu ver, mais um tanto de incompreensão…

Enfim, sabe o que diz a Bíblia sobre o passar do tempo para os filhos de Deus? Que, plantados na Casa do Senhor, mesmo na velhice, ainda darão frutos, permanecerão viçosos e verdejantes, para proclamar que o Senhor é justo (Salmos 92, 14). Frutos de sabedoria e paz, que ora podem simbolizar alimento, ora sombra. Pois também ensina a Palavra do Senhor que é a convivência entre as gerações que traz força aos mais novos:

Agora que estou velho, de cabelos brancos,
não me abandones, ó Deus,
para que eu possa falar da tua força
aos nossos filhos,
e do teu poder às futuras gerações.
Salmos 71:18

Que queiramos ter e transmitir a sabedoria e força dos mais velhos. Pois, a depender da referência, velhos não são os outros… Velhos somos todos nós.

 

Monize Marques
08/05/2022

 

 

BEAUVOIR, Simone de. A velhice. Maria Helena Franco Martins(trad.). 2 ed. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 2018.

CÍCERO, Marco Túlio, 103-43 A.C. Saber envelhecer e A amizade. Porto Alegre: L&PM, 2019.

PACHÁ, Andréa. Velhos são os outros. 1. ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018.

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