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A Angústia e a Teologia da Morte


           
            Em algum lugar no tempo situado nos últimos 4 anos, tive um sonho que iria denunciar ao “ego” a necessidade e o dever emergente de morrer. Em tal sonho, fui transportado para um desmundo, um vazio cujos horizontes em todas as suas dimensões eram nada mais nada menos que um imenso branco sem fim. Todo aquele vazio era interrompido em minha frente por uma enorme porta de pedra, semelhante em textura e tipo, a Pedra de Roseta encontrado pelos arqueólogos do antigo Egito, e nesta porta estaria esculpida em seu centro a Árvore da Vida encontrada em produções literárias cabalísticas, muito parecida com uma situação de um velho desenho que assistia na TV em minha não tão distante infância. Por mais parecido que fosse, existia ali uma diferença crucial, além da grande porta existia um porteiro vestindo um terno roxo, que imediatamente o reconheci como um anjo, guardião do portão que ocultava o segredo da vida, a essência de Deus ou a Verdade (com V maiúsculo), ou até “emet” (אמת) como talvez diria alguns rabinos por aí.


            Ao contrário do que o leitor possa pensar, naquele momento não produzi qualquer comportamento de reverência ao sublime que estava experienciando, e sim o completo oposto. Eu estava completamente possuído por uma conduta de arrogância e insolência, tão típicos da adolescência. Por um segundo, me via de igual para igual com Deus, capaz de olhá-lo olho no olho e exigir um acerto de contas diante daquilo que era “meu por direito” nesta vida tão “injusta”. Caminhei até o porteiro e contei-lhe que sabia que por trás daquela porta estava Deus e que eu iria atravessá-la para tirar satisfação com ele. Não é de surpreender que a reação do anjo fosse de uma risada sarcástica e que sua resposta fosse:


– Você tem certeza que quer atravessar essa porta agindo dessa forma? Você tem certeza disso? – afirmou rindo.
– Sim, tenho certeza! – exclamei com toda a arrogância e insolência características.
– Pois bem! – disse o anjo ao estender a mão apontando em direção a porta com muita seriedade ao mesmo tempo que com um ar de um sarcasmo sereno e uma certa delicadeza.


            Dessa forma, caminhei até a porta, coloquei minhas mãos no centro e a puxei lentamente fazendo surgir uma fresta,  me permitindo olhar por um instante para o que havia ali dentro e nesse mesmo instante fui jogado ao abismo, às trevas tão profundas que eram capazes de fazer meu corpo inteiro paralisar de extrema angústia e medo, caindo continuamente do alto que estava, de volta ao corpo manifesto nesta criação divina. Certamente, creio que Deus Misericordiosíssimo ao lançar-me naquele abismo, ao não permitir que vislumbrasse ou talvez lembrasse o que estava oculto por trás daquela porta, estava realizando um grande ato de Amor e Clemência sem igual.


            Passou-se o tempo, e ano após ano o segredo daquele sonho foi, através de muito sofrimento, revelado pouco a pouco e o véu que ocultava seu sentido desfazendo-se. A revelação era a morte e aquele menino arrogante deveria morrer. Aliás, o que é a religião de Deus senão a religião da vida, da morte e da ressurreição? Como poderíamos ressuscitar sem antes sermos reduzidos às cinzas? É dito na quarta-feira de cinzas “pulvis es”.


            Em um passado distante houve um homem que trocou de nome três vezes: Seu primeiro nome foi Saulo, um garoto violento e arrogante; após ver algo extraordinário ficou cego, e após três dias voltou a ver e seu nome foi mudado para Paulo, que significa “pequeno” e “humilde”; e logo esse pequeno e humilde morreu mas continuou andando. Morreu pois obedeceu ao chamado de Cristo “(…) Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me” – (Lucas 9:23). Àquele Paulo respondeu ao chamado com a morte, e disse: “Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. (…) “ (Gálatas 2:20). Pobre do homem que enxerga nesta passagem apenas uma simples figura linguagem ignorando seu caráter efetivo como uma ruptura de nível espiritualmente transformadora e real.


            Há dois em nós, um que deve morrer e outro que é imortal. Um é o “eu exterior” ou “ego”, particular, condicionado pelas circunstâncias, angustiado e temeroso por sua mortalidade, mas que deve morrer, pois pulvis es et in pulverem reverteris, o outro, o “Eu interior”, espiritual, imortal e incondicionado. Chama o Senhor, “negue-se a si mesmo”, portanto, chama o Senhor à morte o eu mortal para que sobrevenha o imortal, chama o Senhor à morte àquilo que chamamos em nós de Pessoa ou Persona (Máscara) para que o verdadeiro Eu ressuscite, e o verdadeiro Eu é Cristo.


            Assim, o sonho desvela-se como um chamado do Senhor para a morte desse pequeno e efêmero “eu” ou falso “ego” para que haja a ressurreição do verdadeiro “Eu”, para que enfim se possa contemplar a Verdade. Em hebraico, ao ocultarmos a primeira letra de “Verdade” (emet) a palavra passa a significar “morte” (met). Mas como morrer? Como negar a si mesmo? A chave está no grande segredo “Tornamo-nos naquilo em que meditamos”. Somente ao meditar incessantemente no Senhor é que podemos nos tornar como o Senhor. Como é dito: “Orai sem cessar” (1 Tessalonicenses 5:17), portanto oremos sem cessar, neguemos a nós mesmos e crucifiquemo-nos com Cristo para que possamos enfim ressuscitar. Como alguém vivo poderia comer o fruto da árvore da vida e viver para sempre sem antes morrer?  Uma vez disse o teólogo Meister Eckhart, “O reino do Céu não é para ninguém além dos completamente mortos”. Ser realmente quem nascemos para Ser, Ser em Cristo, ou “Não é verdade que ‘toda a Escritura clama pela liberdade do Eu’? ”

Ian Birnbaum

Citações circunstanciais: Ananda Coomaraswamy, “O Sentido da Morte”.

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